A injustiça da guerra

22 Novembre 2022
Fonte_www_interno_gov_it

Pedimos a alguns conhecidos teólogos moralistas de diversos lugares do mundo, unidos pela amizade com a Accademia Alfonsiana, de escrever para o nosso blog um comentário sobre o texto de papa Francisco, Fratelli tutti, nn. 256-262, sobre uma questão extremamente atual: A injustiça da guerra. Eis a segunda contribuição da série.

Embora afirmada pelo Catecismo da Igreja Católica, a teoria da guerra justa precisa ser questionada. A guerra, crueldade que coloca em risco o futuro da humanidade, deve ser sempre evitada, embora muitas vezes se imponha por questões de autodefesa. Mas nem por isso podemos adjetivá-la como justa e, muito menos, justificá-la como justa. Se a mínima expressão de justiça é dar a cada um o que lhe compete, a única coisa justa que compete a um povo é viver na paz. Reconhecer tal realidade significa empreender todos os esforços para deslegitimar a guerra. Adjetivá-la, seja como for, para poder justificá-la significa declarar a derrota da política e da humanidade.

Deslegitimar a guerra significa reconhecer que há caminhos alternativos ao recurso à força para a superação dos conflitos e, sobretudo, para evitar as consequências sempre desastrosas provocadas pelas guerras. Se a dor de quem sofre a violência da guerra pode ser pontual, o sofrimento que deriva dessa dor se prolonga no tempo e continua por séculos a provocar danos. Não há argumento capaz de legitimar qualquer tipo de sofrimento que poderia ser evitado, assim como é inconcebível acreditar que a paz resulte de muitos lutos. A deslegitimação da guerra implica o reconhecimento de que o investimento nas mais diversas armas de guerra não garante qualquer tipo de segurança e estabilidade que se prolongue no tempo; pelo contrário, segurança e estabilidade derivam de condições dignas de vida e da prática da justiça em todos os níveis.

Deslegitimar a guerra implica superar a ingenuidade que leva a acreditar que as lógicas políticas presentes no mundo possam ser facilmente superadas. Há muitos interesses pessoais e institucionais por detrás de conflitos que são propositadamente desencadeados para que a força seja demonstrada, o poder seja ampliado, o domínio seja expandido, a supremacia de uns sobre outros seja confirmada e o “bem” confirme sua vitória sobre o “mal”. A deslegitimação da guerra implica a edificação de uma nova cultura para a resolução dos problemas e dos conflitos, uma cultura em que a amizade social e a fraternidade sejam sustentadas pelo diálogo e pela busca de soluções que não provoquem danos à humanidade, não lesem os direitos fundamentais das pessoas e não destruam a casa comum.

Na perspectiva cristã, a deslegitimação da teoria da guerra justa impõe-se pela lógica evangélica da não violência. Trata-se de uma lógica que, tendo presentes as causas que levam/geram as guerras e a fragilidade de um sistema de convivência assentado sobre o poderio das armas, reconhece o poder da conciliação e da reconciliação, a força das medidas diplomáticas e econômicas, a eficácia das campanhas não violentas e o anúncio da paz como resultado da prática da justiça. A lógica da não violência tem prioridade ética sobre quaisquer motivos que pretendam legitimar qualquer tipo de guerra, devido aos impactos devastadores das armas atualmente disponíveis e às catástrofes humanitárias que podem derivar do seu uso.

Como cristãos, ao pretendermos legitimar a teoria da guerra justa, deturpamos a essência da religião que, por natureza, é chamada a ser não violenta. Desse modo, contribuímos para a destruição da própria religião que pretendemos viver, pois atentamos contra a fé que a sustenta. O imperativo moral que deriva do seguimento a Jesus é a transformação não violenta dos conflitos. Para que isso seja possível, é preciso que assumamos a força do amor como caminho que supera toda espécie de destruição e que torna toda guerra injusta. No entanto, a convicção que sustenta um amor que pretende ser evangélico é que ele subverte a lógica dos poderosos e prepotentes senhores deste mundo e, por isso, acredita até o fim que maior é aquele que se faz pequeno; grande, aquele que serve; ganha aquele que perde; salva-se aquele que se perde; ressuscita aquele que morre. A guerra é sempre injusta. Justa é apenas a paz!

Ronaldo Zacharias, sdb
Dottore in teologia Morale

26 commenti

  • Pe. João Mendonça 22 Novembre 2022a9:21 am

    Nas missas nós rezamos pela paz, na oração eucarística pedimos que “a busca da paz vença os conflitos e o perdão supere o odio”.
    A guerra é um ato de perversão da razão. Não há como justificar que se use a força para matar, destruir, eliminar. Considero a fala e os esforços do Papa necessários e precisamos nos unir a ele neste grito contra a injustiça da guerra.

  • Sonia 22 Novembre 2022a9:35 am

    Sim, Pe. Ronaldo, a única força capaz de subverter a guerra e cuidar da vida é o amor. Excelente reflexão/texto, nos ajuda a olhar e a buscar incessantemente o Jesus que quer o bem de cada um/a e de tod@s . Obrigada por suas sempre inspiradas letras que são vida. Grande abraço. Sonia

  • José TRASFERETTI 22 Novembre 2022a9:55 am

    Parabéns. O texto escrito pelo professor doutor padre Ronaldo Zacharias e ótimo. Está em sintonia com o papa Francisco e deve ser utilizado em nossas aulas e atividades pastorais. Abraços

  • Avelino 22 Novembre 2022a9:58 am

    Difícil é o tempo em que é preciso dizer o óbvio sobre o cristianismo: que não há espaço para justificar a violência na ética cristã. Mas o texto do Ronaldo faz esse esforço didático necessário aos nossos dias.

  • Thiago 22 Novembre 2022a10:35 am

    Fenomenal análise! A coragem e a capacidade técnica de criticar sempre presente! Obrigado por nos brindar com esse belo e necessário texto!

  • Rubens Mota 22 Novembre 2022a10:47 am

    Os Cenários das guerras desvelam as mazelas humanas: ganância de poder

  • Elvira Freitas 22 Novembre 2022a10:51 am

    A guerra, sob qualquer pretexto, se justifica, até porque entre suas muitas consequências nefastas está a mais terrível que é o aumento da fome e pobreza no mundo. Enquanto a indústria bélica próspera, igualmente próspera a classe miserável.

  • Mário Marcelo Coelho 22 Novembre 2022a11:50 am

    Excelente artigo escrito pelo Ronaldo Zacharias. É preferível o caminho da paz e que é contrário a lógica da violência, de toda violência. A guerra, tida como “justa” é um recurso sistemático à violência, totalmente manipulável a serviço de dominadores. Não existe nenhum critério segundo o qual é tolerável uma ação armada e inclusive uma guerra ofensiva.
    É preferível o caminho do diálogo, do entendimento, da fraternidade e da paz. Por isso é preciso anunciar uma ética-cristã contra a lógica da violência.

  • Jamir Pedro 22 Novembre 2022a12:52 pm

    Vivemos em tempos difíceis. Aparecem as linguagens e atitudes apocalípticas com o intuito de busca de auto defesa perante aos que praticam e defendem a violência. Realmente não tem possibilidade de defender uma guerra como justa se o resultado desta é a morte onde os pobres são os primeiros prejudicados. Que continuemos a apostar na cultura da justiça e da paz.

  • Marta Luzie 22 Novembre 2022a1:04 pm

    Concordo plenamente com o artigo. Como afirma o Papa Francisco, o diálogo entre pessoas e as nações é sempre o melhor caminho. Jesus deixou-nos a paz. É contraditório ao cristianismo a noção de uma guerra justificável.

  • Maria Emília 22 Novembre 2022a1:07 pm

    A guerra!! Toda e qqer guerra spre começará pelas batalhas íntimas que cada um ainda trava consigo mesmo e se recusa a usar as armas do Amor da Justiça do Perdão e principalmente da transitoriedade das coisas..Essas sublimes armas se encontram guardadas no coração de cada ser humano que têm a coragem de priocura-las encontra-las e usá-las em benefício próprio e consequentemente em benefício do próximo.Portanto inútil será querer acabar com a guerra sem as atitudes concretas de reconhecimento e comprometimento com a responsabilidade de transitar pela presente existência fazendo desejando e principalmente sentindo pelo próximo aquilo que gostaríamos de receber em troca! Compreender a dinâmica do Evangelho não é apenas concordar com ela.mas manifesta-la em Espírito e Verdade Para tanto trabalhar com o objetivo de retirar as ervas daninhas que são proliferadas pelo orgulho egoísmo e vaidade que reunidas têm o poder de destruir uma das mais belas criações de Deus: ” Nós seres humanos”

  • Eliel Vinicius 22 Novembre 2022a1:18 pm

    Bela reflexão. Recordo-me, instantaneamente, do pensamento do grande Helder Câmara:

    “A única guerra legítima é aquela que se declara contra a miséria e a ignorância.”

  • Emilce 22 Novembre 2022a1:22 pm

    Muchas gracias Ronaldo por tu profunda reflexion sobre justicia. Hablar de guerra no es simplemente condenar la violencia como forma armada del conflicto, sino denunciar la injusticia social como la causa encubierta. Como latinoamericano sabes mucho de eso.

  • Marco Biaggi 22 Novembre 2022a1:32 pm

    Muito interessante esta reflexão sobre a deslegitimação da guerra! “Bem-aventurados os pacificadores, deles é o Reino dos Céus!” foi proclamado numa das “Bem-aventuranças” ditadas por Jesus. Devemos ser praticantes da justiça e semeadores da paz! Assim colheremos frutos do amor. Nosso mundo poderá ser diferente se deixarmos guiar pelos princípios de vida que Cristo viveu e nos ensinou. Que os argumentos pacificadores a nosso favor sejam mais fortes que a agressividade para defender nossas ideias. Parabéns pela reflexão iniciada e partilhada.

  • Camilo Profiro 22 Novembre 2022a1:38 pm

    Claro, conciso preciso. Investir no fortalecimento da cultura da paz é tarefa urgente. Obrigado pela contribuição

  • Adair Aparecida Sberga 22 Novembre 2022a1:49 pm

    Obrigada, Pe. Ronaldo, por essa excelente reflexão. Temos que deslegitimar a guerra, o discurso de ódio, a desigualdade social, o racismo e a exclusão que acontece de tantas formas e que fere a humanidade. Precisamos promover alianças em favor da cooperação para o desenvolvimento das sociedades, do bem comum e da construção de futuros pacíficos, justos e sustentáveis.

  • Maria Inês Millen 22 Novembre 2022a4:12 pm

    Ótimo texto. Não existe Guerra Justa. Toda guerra é injusta eticamente, pois não respeita a dignidade inalienável do ser humano e nem o princípio do bem comum. Toda guerra é disputa por algo que não pode ser maior que a vida das pessoas – dinheiro, território, posses, poder. Lutemos pela paz!

  • Átila Francucci 22 Novembre 2022a4:14 pm

    Amar é desarmar-se – no sentido mais amplo do verbo. Padre Ronaldo explícita esse sentido quando nós relembra que o amor evangélico é subversivo: subverte a lógica do poderoso, subverte o pensamento dos senhores do mundo. Paz, não como solução final e sim como passo inicial.

  • Luigi 22 Novembre 2022a6:14 pm

    Bellissime e condivisibili parole. La guerra è sempre ingiusta.

  • Eraclides Reis Pimenta 22 Novembre 2022a6:40 pm

    Nessa primeira metade do século XXI, parece despontar um certo “falimento moral”, que pode ser explicado como descrença na necessidade de insistir pelo bem. Às vezes temos a impressão de que estamos formandos gerações covardes, inseguras ou até incapazes de sonho e vontade de mudança. Produz-se muita coisa em busca de interesses particulares, mas pouco se denuncia as vergonhas e os horrores que agridem o bem comum, entre os quais a PAZ!

  • Pe José Lopes 22 Novembre 2022a10:31 pm

    Magnífica reflexão!!! Sim, a guerra sempre será injusta, pois é resultado da incapacidade de diálogo, partilha e, imposição do poder sob a égide da violência. Numa guerra, sempre os mais pobres são os mais prejudicados e mortos, inclusive com a contínua negação a sua dignidade de pessoa humana.

  • Arnaldo Cezar 23 Novembre 2022a2:43 am

    “A guerra é sempre injusta. Justa é apenas a paz!”

    A questão é aceitar que os pobres também tem dignidade intrínseca ao seu ser e, por isso merece viver livre e em paz; merece viver como ser humano de fato sem o medo de ser escravizado ou tratado como alguém que só se é considerado algum coisa porque é pobre. Não. Ele precisa ser considerado pessoa humana, digno de ser livre e viver em paz. A guerra é coisa humana, claro. Mas a mesma humanidade pode encontrar caminhos de sublimidade do desejo de guerrear transformando-o em possibilidade de pontes e de fraternidade sócio-cultural e econômica.

  • Adelino Francisco de Oliveiraa 23 Novembre 2022a4:57 pm

    Excelente, lúcida e fundamental reflexão de Ronaldo Zacharias. As guerras representam, de fato, o fracasso da diplomacia enquanto articulação política e também a derrota do projeto civilizatório. Para o pensamento teológico cristão, a guerra significa a violência extrema contra a criação divina. A guerra aniquila a vida humana, mas também a própria natureza, o planeta.

  • Rafael Galvão 24 Novembre 2022a8:56 pm

    In un tempo di estremismo, in cui il dialogo quasi non avviene, dobbiamo cercare l’essenziale, andare alle nostre radici… Come avverte l’autore: Usare comunque l’aggettivo (guerra) per giustificarla, significa dichiarare la sconfitta della politica e dell’umanità. Noi cristiani dobbiamo assumere la cultura della pace, della fraternità e della donazione… cioè essere Cristo, l’essenza del cristiano, concetto che non accetta in alcun modo la guerra.

  • Carolina Mureb 25 Novembre 2022a3:50 pm

    O discursoda guerra justa colabora no crescimento e na lucratividade da indútria bélica, talvez a única que se beneficia, além daqueles que recebem os seus “agradecimentos”. Nete sentido, é urgente recolocar política e economia nos seus lugares, pois a verdadeira política cuida do bem estar dos cidadãos, logo, evitará qualquer tipo de guerra. Quando a política regula e orienta a economia, os interesses do povo não serão sacrificados em função do lucro de um grupo, como acontece com os produtores e vendedores de armamentos. Francisco, mais uma vez, acerta na questão central: a política não pode se submeter à economia.

  • Edwin Vásquez 25 Novembre 2022a11:56 pm

    Excelente comentario del teólogo brasileño Ronaldo Zacharias. La teología católica debe marcar una clara distancia frente a cualquier intento de justificar la guerra. No hay tal cosa como una “guerra justa”. Sí, es posible que haya circunstancias en que la defensa propia exija el uso de la fuerza. No se puede imponer a un pueblo la doctrina evangélica de colocar la otra mejilla frente a la agresión ilegítima. Pero el uso de la violencia debe ser estrictamente confinado a esas situaciones.
    Hay que desmontar los discursos de los poderosos de este mundo que intentan justificar la guerra. Creo que la teología puede tomar el camino del cuidado de la casa común como el contexto amplio para un cambio en la doctrina. Si vamos a sobrevivir como especie, la lucha contra el cambio climático debe abordarse como propone Laudato Si´: una sola crisis socio-ambiental. Y uno de los elementos de la crisis social es que persisten situaciones de guerra en un mundo que debería estar todo orientado a evitar más daño al planeta.

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