Necropolítica 3/3: Necropolítica e Estrutura de pecado, um horizonte de reflexão que se abre
Dalbem / 6 Gennaio 2022

Em modo muito sintético, como nos pede a escrita em um blog, vimos nos artigos passados como o conceito de necropolítica proposto por Mbembe, bem como suas raízes no biopoder de Foucault, nos auxilia na compreensão de um modo de injustiça social, que ultrapassa o mero ato singular, para se complexificar na construção de estruturas sócio-econômico-culturais geradoras de morte e exclusão. Em linha muito próxima a esta reflexão, o pensamento moral católico encontrou nas expressões “pecado social” e “estruturas de pecado”, uma vertente para expressar seu parecer diante das estruturas de injustiça presentes nas sociedades modernas que geraram e geram verdadeiros “holocaustos”, matando não somente fisicamente mas, como evidencia o pensamento do professor Mbembe, criando um exército de “mortos-vivos sociais” através da exclusão. Dos números 98 a 101 de Veritatis Splendor, o papa São João Paulo II, refletindo sobre os diversos problemas sociais que colocam em risco o respeito à dignidade humana, percebe como diversos elementos presentes não somente na política, como também na economia, se apresentam como verdadeiras estruturas a minar o direito à vida, extraindo de tantos o acesso ao mais básico para a sobrevivência, reduzindo o humano a um objeto, escravizando-o sob diversas formas. É um pecado…

Necropolítica 2/3: Suas raízes no pensamento de Foucault
Dalbem / 10 Dicembre 2021

Antes de seguirmos aprofundando propriamente no conceito de “necropolítica”, proposto pelo prof. Mbembe, se faz necessário descer às raízes epistemológicas de seu pensamento para compreender como o autor aprofunda em processo de continuidade e descontinuidade a tradição filosófica recebida. Sendo assim, constatamos que a visão de Achile Mbembe encontra sua base no conceito de “bio-poder”, proposto pelo célebre filósofo Michel Foucault. A primeira aparição consistente de tal pensamento que temos conhecimento, acontece no interior do último capítulo, «Direito de morte e poder sobre a vida», do I Volume, Vontade de saber, da História da Sexualidade de Foucault. De modo extremamente resumido, podemos dizer que o filósofo francês parte do modo como era exercido nos regimes antigos o “direito de morte”. Aparentemente como uma evolução do patria potestas do direito romano, através do qual o chefe de família poderia dispor da vida de seus filhos e escravos, o soberano, para defender a sua vida e a vida do Estado, poderia decidir “justificadamente” sobre a morte de determinados indivíduos ou grupos para que assim a ameaça cessasse. A guerra, deste modo, é justificada como um instrumento sobretudo de proteção. Com o passar das etapas históricas e, principalmente, a evolução da técnica e…

Necropolítica 1/3: Como surgiu o termo?
Dalbem / 29 Ottobre 2021

  O contexto de pandemia que já estamos vivendo a quase dois anos, trouxe à discussão o interessante conceito de “necropolítica”, de formulação muito anterior ao surgimento do vírus SARS-COVID-19, evidenciado pelas posturas de alguns governos e instituições financeiras na gestão da crise humanitária criada. Notamos a ampla difusão do termo em diversos artigos de jornais e discussões populares, mas que na maioria das vezes não dão conta da profundidade da reflexão contida em sua formulação. Sendo um argumento que tem ganhado importância nas discussões de âmbito moral social, propomos assim uma série de três artigos onde, sinteticamente, traremos algumas informações sobre o autor que cunhou o conceito, seu conteúdo e sua evolução a partir do conceito de “biopoder” proposto pelo pensador Michel Foucault. O termo necropolítica foi proposto pelo filósofo camaronês Achile Mbembe. Nascido em 1957, atualmente é professor de História e Ciências políticas na Universidade de Witwatersrand em Johanesburgo, África do Sul, bem como pesquisador no Wits Institute for Social and Economics Research. Anteriormente, durante sua fase norte-americana, foi professor nas Universidades da Califórnia, Columbia e Yale. Seu país natal, Camarões, situado na parte ocidental da África Central, foi dividido logo após a Primeira Guerra Mundial entre a…

Vida religiosa e vida de batizados: um caminho profético
Dalbem / 25 Giugno 2021

Entre os dias 17 e 22 de maio p.p., aconteceu de modo online, a partir da Espanha, a 50° Semana Nacional pelos Institutos de Vida Consagrada. Este evento, já tornado uma tradição naquele país, teve início por intuição e movimentação do então presbítero Aquilino Bocos Merino, hoje cardeal, quando este geria a Revista Vida Religiosa. Papa Francisco, participando através de uma vídeo-mensagem, deixou alguns elementos muito importantes que, embora direcionados aos religiosos, tocam a todos os batizados uma vez que a vida religiosa é a radicalização (buscar nas raízes) da graça batismal. É sobre esta ótica que escrevemos este breve artigo: tomando os impactos das intuições do papa não somente para os religiosos, mas para todos os que creem. Comecemos com o breve agradecimento que o papa dirige ao Cardeal Aquilino: um homem que carrega em si uma certa inquietude por compreender a riqueza da vida consagrada e busca fazê-la frutificar, não deixando perder-se em meio às teorias, mas convocando-a a realizar-se no chão da vida. Eis que aqui se encontram características que realmente devem ser louvadas em um cristão! A vida cristã, pautada no Amor Trinitário, não se resume à crença em determinadas afirmações, mas à experiência concreta e…

E o depois da pandemia? O drama da COVID longa
Dalbem / 28 Maggio 2021

E o depois da pandemia? O drama da COVID longa Um estudo coordenado pelo Dr. Ziyad Al-Aly, da Escola de Medicina de Saint Louis da Universidade de Washington, publicado mês passado pela renomada revista Nature, aponta para o drama da, assim chamada, “COVID longa”. Baseado sobre os dados fornecidos pelo Departamento de Assuntos de Veteranos dos Estados Unidos, a pesquisa apontou que nos indivíduos do grupo analisado que foram infectados e curados, havia uma probabilidade de risco de morte aumentada em 59% nos seis meses posteriores à alta médica. Embora a infecção pelo vírus não fosse mais ativa, as sequelas são profundas e graves. A pesquisa identificou problemas não somente no aparelho respiratório, mas também no sistema nervoso, além de distúrbios neurocognitivos, distúrbios de saúde mental, distúrbios metabólicos, distúrbios cardiovasculares e distúrbios gastrointestinais. Na visão do prof. Ziyad, a internação por COVID-19 é somente a ponta do iceberg, e que agora estamos começando a vislumbrar o que existe por baixo, ou seja, o início das consequências.  É normal que no atual momento estejamos principalmente empenhados no tratamento imediato das pessoas infectadas e na aplicação de vacinas para a imunização da população. Porém, a referida pesquisa lança um alarme amarelo aos…

Dopo l’attacco terroristico alla Basilica dedicata alla Madonna Assunta a Nizza …
Dalbem / 3 Novembre 2020

  Ancora sconcertato e rattristato dagli eventi del 29 ottobre 2020 nella città di Nizza (Francia), ho aperto il sito del quotidiano Avvenire e mi sono imbattuto in un’interessante intervista. Lucia Capuzzi ha parlato con una nota autorità musulmana, il signor Mohamed Abdesalam Abdellatif, segretario generale del Comitato Superiore della Fraternità umana e stretto collaboratore del grande Imam di al-Azhar, Ahmed al-Tayeb. Il titolo dell’intervista: «Dopo l’attentato a Nizza. È un crimine abominevole: fuori dall’Islam chi lo pratica» (link). Certamente queste ultime settimane sono state molto complicate, con due attentati terroristici, motivati dalla strumentalizzazione dell’Islam. Le parole di Abdellatif sono molto dure nei confronti di quanti sono stati coinvolti nelle uccisioni: da coloro che le hanno effettivamente praticate a coloro che hanno avuto una certa partecipazione “da dietro le quinte”. Egli sottolinea che tali pratiche non rappresentano l’Islam, ma una sua strumentalizzazione. Ricorda l’importanza del Documento per la “Fraternità umana”, firmato da Papa Francesco e dal grande Imam. Riconosce, insieme a gran parte della comunità islamica, che esistono modi pacifici e legali per far valere i propri diritti ed esprimere il malcontento. Quello che però mi ha colpito di più è stata la frase con cui ha concluso l’intervista, rispondendo…

Pedro e Paulo: um caminho para uma moral encarnada
Dalbem / 26 Giugno 2020

Nesta semana em que celebramos a solenidade que recorda a vida destes grandes personagens da história cristã, chegamos também ao final de mais um semestre letivo, ou melhor, de mais um ano letivo. É, sem dúvida, um profícuo momento de revisar o caminho realizado até o presente tempo, enriquecendo e reforçando nossas bases metodológica e epistemológica. Sendo assim, recordamos que a identidade da Accademia Alfonsiana é profundamente marcada por um modo de fazer moral inspirado no ensinamento de Santo Afonso Maria de Ligório, ou seja, uma moral que parta da vida, em contínua fidelidade misericordiosa ao amor Trinitário manifestado em plenitude na vida de Jesus e no Reinado de Pai proclamado por ele, em continuidade com a comunidade de fé-Igreja, sustentada na graça do Espírito Santo. Refletindo sobre todo este contexto, recordei-me do assim chamado Concílio de Jerusalém (At 15.1-33), onde  estas duas figuras importantes na história de nossa fé teriam se encontrado. Mais do que fazer um estudo exegético da perícope bíblica, proponho uma pequena reflexão sobre o conteúdo simbólico que encontramos nas pessoas de Pedro e Paulo no interior daquela importante reunião, e como isto pode nos inspirar no caminho de uma moral encarnada no chão da história…

Franciscos, Afonso e a moral que nasce do Presépio
Dalbem / 25 Dicembre 2019

O tempo cronológico faz o seu trabalho e, mais uma vez, um ano se aproxima do seu fim. No âmbito do simbólico, para experimentar aquela outra qualidade de tempo que extrapola o mero passar dos minutos indo à dimensão da graça, aprendemos a celebrar a abertura e o fechamento de ciclos povoando a linearidade temporal de “estações” carregadas de sentimento e sentido. O Eterno Divino, irrompendo e rompendo a monotonia temporal da humanidade, estabelece a estação-símbolo maior, lugar/tempo de fala e de encontro: a Encarnação do Verbo. Natal, nascimento, é assim que aprendemos a chamar este acontecimento; presépio, é deste modo que a arte-orante traduziu a simplicidade-complexa deste evento. Algumas semanas atrás, Papa Francisco, na breve Carta Apostólica Admirabile Signum, dada à publicação em Greccio, no Santuário do Presépio no dia 01 de dezembro, recorda e contempla a proposta de outro Francisco, aquele que séculos atrás, naquele mesmo lugar, começou a tradição de assim representar a Encarnação. Francisco, o atual, recorda o presépio como uma forma singular de experiência da proximidade de Deus. Tal proximidade que irrompe na pretensa estabilidade humana portando a novidade de uma vida plena e fraterna. «…Jesus é a novidade em meio a um mundo velho,…